A INFLUÊNCIA DE PAUL VALÉRY NOS PRIMEIROS LIVROS DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Carolina Duarte D. Ferreira - IEL/UNICAMP
Antonio Candido, em “Poesia ao Norte”, defende que Pedra do Sono, livro de estréia de João Cabral de Melo Neto, é marcado por um certo “surrealismo construtivista” e por um anseio de ordenar pela inteligência imagens “pescadas no sonho”. Essas observações são valiosas porque mostram a importância que o poeta atribuía, desde seu primeiro livro, à razão e à consciência no ato criativo, importância essa que não exclui de forma alguma os elementos irracionais e oníricos. Para trabalhar com esses dois pólos opostos, o racional e o irracional, o construído e o espontâneo é preciso tentar “penetrar no mistério de olhos abertos”, imagem extremamente elucidativa utilizada por João Cabral, em seu ensaio “Reflexões sobre o Poeta Dormindo”, para apontar uma das características que admirava em Paul Valéry.
Antes de mostrar o papel de Paul Valéry nos livros de formação do poeta pernambucano, faz-se necessário lembrar um dos grandes preceitos do autor de Cemitério Marinho. Valéry se insere em uma tradição de poetas (como Poe, Baudelaire e Mallarmé) que postula a dependência entre a poesia e a reflexão crítica. A célebre frase, escrita em Cartas a Mallarmé, mostra a que ponto, para ele, essas duas atividades estão ligadas: “Preferiria, infinitamente, escrever com inteira consciência e lucidez alguma coisa fraca a criar com angústia e fora de mim uma obra prima entre as mais belas”.
João Cabral seguramente compartilha desse ponto de vista, um dos principais elos entre os dois. O autor de Antiode assumiu, algumas vezes, que foi influenciado por Mallarmé e Valéry, herdando dos dois a teoria poética e a preocupação construtivista. Como essa influência se dá basicamente no âmbito da teoria poética, o terceiro livro do poeta não pode deixar de ser mencionado.
O Engenheiro, terceiro livro de João Cabral de Melo Neto, que reúne poemas escritos entre 1942 e 1945, apresenta-se como marco significativo da evolução do projeto estético do poeta. Sua importância provém da formalização e do início da resolução do impasse, já presente em Pedra do Sono, entre o sono e a vigília, a expressividade simples e a construção, uma atitude passiva ou ativa do poeta frente aos sonhos e à poesia. Essa luta que se instaura entre duas formas de fazer-poético marca o Engenheiro fazendo com que esse livro publicado em 1945 seja um esboço da poética cabralina que irá se consolidar nas publicações posteriores, como em Psicologia da Composição.
Visto que o livro mencionado representa a busca de uma postura face à criação, o fato de um poema ser dedicado a Paul Valéry não pode passar desapercebido. A análise desse poema possibilita vislumbrar algumas etapas do projeto estético do autor pernambucano e o papel de Valéry em sua trajetória poética.
A Paul Valéry
É o diabo no corpo
ou o poema
que me leva a cuspir
sobre meu não higiênico?
Doce tranqüilidade
do não fazer; paz
Equilíbrio perfeito
do apetite de menos.
Doce tranqüilidade
da estátua na praça
entre a carne dos homens
que cresce e cria.
Doce tranqüilidade
do pensamento de pedra
sem fuga, evaporação,
febre, vertigem.
Doce tranqüilidade
Do homem na praia:
O calor evapora,
A areia absorve,
as águas dissolvem
os líquidos da vida;
e o vento dispersa
os sonhos, e apaga
a inaudível palavra
futura, – apenas
saída da boca,
sorvida no silêncio.
A primeira estrofe chama a atenção pela presença da primeira pessoa, que desaparece nas demais. O que representa a presença tão efêmera desse “eu” e a que elementos ela está vinculada? Em primeiro lugar, cabe observar que a estrofe marcada pela primeira pessoa é a única que termina com um ponto de interrogação. Como O Engenheiroé um livro de impasses, o fato da marca pessoal aparecer na estrofe de indagação, de questionamento, para logo depois se retirar, é bastante significativo. O “eu”, presente na estrofe menos tranqüila e solar do poema, representa uma postura frente à poesia que é descartada. Esse modo de fazer poético está vinculado a um estado de possessão por forças ocultas e obscuras (o “diabo no corpo”), próprias da poesia de arrebatamento e de fluxo, cuja matéria é a fugidia e impalpável nuvem da inspiração. Na pergunta, o “diabo no corpo” e esse tipo de “poema” maculam e injuriam (“cuspir sobre”) o “não higiênico’, ou seja, a arte de recusas, depurada, que O Engenheiro vai traçar. Esse momento tenso do poema, fundamental por marcar a necessidade de escolha entre duas tradições artísticas, vai culminar com a filiação à poética lúcida, trabalhada, contrária ao lirismo desenfreado que é a de Paul Valéry. Alcides Villaça, em seu ensaio “Expansão e limite na poesia de João Cabral", coloca que Pedra do Sono buscava o “exorcismo da condição lírica sem meios reais de se furtar à expressão subjetiva”. Em seu terceiro livro, João Cabral encontra esses “meios reais” e o exorcismo se torna possível. Assim, o diabo sai do corpo como o subjetivismo incontrolado sai do poema e da obra do poeta.
Passado esse momento inicial, ocorre uma mudança brusca no poema, a tumultuada e indagativa possessão evaporando-se e cedendo lugar à serenidade da poesia lúcida. As diretrizes criativas da poética escolhida são expostas nas estrofes seguintes, cuja simetria, obtida graças à repetição do verso “Doce tranqüilidade”, instaura um equilíbrio apolíneo no poema, evidenciando o contraste com a estrutura instável que regia até então. O “não-fazer”, na segunda quadra, associado à “paz”, ao “equilíbrio perfeito” e ao “apetite de menos”, reafirma alguns princípios da atitude criativa adotada, como a paciência com o objeto e com a linguagem, imprescindíveis para a construção de uma forma sólida. O poeta, com “apetite de menos”, passa a trabalhar apenas com as “Vinte palavras sempre as mesmas/ de que conhece o funcionamento, / a evaporação, a densidade / menor que a do ar “, restringindo seu campo de ação em nome de um mecanismo criativo mais racional. Nas duas estrofes seguintes, esse processo de depuração se concentra na imagem da pedra, presente em “estátua da praça” e no “pensamento de pedra”. Nesses dois momentos, a pedra está, de certa forma, associada ao homem, já que a estátua é o resultado de uma criação artística e o pensamento, atribuído ao mineral, é o maior atributo humano. A idéia de comunhão pedra-homem precisa ser destacada, pois reforça que o rigor formal almejado por João Cabral, e também por Paul Valéry, está impregnado de características humanas e de natureza, matéria prima do edifício. A estátua, cercada pela “carne dos homens que cresce e cria”, matéria orgânica transitória, e o “pensamento de pedra”, imune a qualquer tipo de dispersão, apontam para um dos objetivos do poeta: fixar, através da lucidez e do árduo trabalho de escultura, o que há de “fuga, evaporação, febre, vertigem” na natureza e na condição humana. Esse objetivo, responsável pela preponderância do fazer sobre o dizer na obra cabralina, é compartilhado também por Paul Valéry, o que se evidencia em um de seus textos sobre o Cemitério Marinho:
Se pois me interrogam: se se inquietam (como acontece, e às vezes muito vivamente), acerca do que eu “quis dizer” em tal poema, respondo que eu não quis dizer, mas quis fazer, e que foi a intenção de fazer que quis o que eu disse....
Como O Engenheiro é um marco decisivo na poesia de João Cabral, que faz nesse livro um balanço de suas produções anteriores para cristalizar seus princípios, é inevitável lembrar-se, ao ler as últimas estrofes de “A Paul Valéry”, do “Poema e a água”, transcrito abaixo:
O POEMA E A ÁGUA
As vozes líquidas do poema
Convidam ao crime
Ao revólver.
Falam para mim de ilhas
Que mesmo os sonhos
Não alcançam.
O livro aberto nos joelhos
O vento nos cabelos
Olho o mar
Os acontecimentos de água
Põem-se a se repetir
Na memória
(In: Pedra do Sono).
Nota-se que a mesma cena é retomada, em terceira pessoa, e na mesma chave de “Doce tranqüilidade” das quadras anteriores. O homem na praia, em “A Paul Valéry”, observa, na serenidade contemplativa do “não fazer”, o mar e a fugacidade dos sonhos e dos fluidos da vida. A conservação da tranqüilidade, prêmio para quem não dá mais ouvidos às “vozes líquidas do poema”, exige que a poesia não seja escorregadia e incorpórea como a água, porque toda palavra úmida (“as úmidas flores do sono”) se apaga. Quais são então os terrenos da poesia? Os “líquidos da vida” são absorvidos pela areia ou pelo silêncio, ambos simbolizando a infertilidade, ameaça que ronda todo aquele que opta por uma poética de recusas e que atingiu Paul Valéry por mais de vinte anos. Mas, mesmo em chão tão árido, ainda é possível a palavra poética que, brotando da ordem e da limpeza do silêncio, aproxima-se da estátua, construída para ser vista e ocupar um lugar definitivo no espaço.
A maior lição de Paul Valéry para João Cabral de Melo Neto é, certamente, a pregação da lucidez no ato criativo, embora o diálogo entre os dois não se restrinja à adoção desse princípio. O poeta francês tem um grande papel na obra do autor de Educação pela Pedra porque ambos vivem, em sua poesia, a luta de quem não apenas busca o rigor e a consciência, mas que também aceita os elementos irracionais, oníricos e a vida. É imprescindível colocar que a influência do autor de M. Teste é repassada por características pessoais de João Cabral, fazendo com que a realização poética dos dois seja consideravelmente diferente, tanto em aspectos formais quanto nos temáticos. Essa diferença temática, que se evidencia sobretudo na segunda fase da obra do poeta pernambucano não impede, no entanto, que seus primeiros livros apresentem temas recorrentes da obra valeriana, como o silêncio e o deserto. O trabalho será encerrado com a leitura de um trecho de “Palmeira”, de Paul Valéry, e de “Psicologia da Composição”, poemas que permitem vislumbrar os elos dos dois grandes poetas que, em seu cultivo ao deserto, também abrem espaço para a surpresa.
Ces jours qui te semblent videsEsses dias que te parecem vazios
Et perdus pour l’universE perdidos para o universo
Ont des racines avidesPossuem raízes ávidas
Qui travaillent les déserts.Que trabalham os desertos
La Substance chevelueA substância cabeluda
Par les ténèbres éluePelas trevas eleita
Ne peut s’arrêter jamaisNão pode parar jamais
Jusqu’aux entrailles du mondeAté as entranhas do mundo
De poursuivre l’eau profondeDe perseguir a água profunda
Que demandent les sommets.Que exigem os cumes.
Patience, patience, Paciência, paciência
Patience dans l’azur! Paciência no azul!
Chaque atome de silenceCada átomo de silêncio
Est la chance d’un fruit mûr!É a chance de um fruto maduro!
Viendra l’heureuse surprise: Virá a feliz surpresa:
Une colombe, la brise,Uma pomba, a brisa,
L’ébranlement le plus douxO abalo mais doce,
Une femme qui s’appuie,Uma mulher que se apóia,
Feront tomber cette pluieFarão cair esta chuva
Où l’on se jette à genoux!Onde nos atiramos de joelhos!
Tradução: Fúlvia M. L. Moretto
(In: Charmes) Guacira Marcondes Machado.
VIII
Cultivar o deserto
Como um pomar às avessas.
(a árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
cai, fruto!
Enquanto na ordem
De outro pomar
A atenção destila
Palavras maduras.)
Cultivar o deserto
Como um pomar às avessas:
Então, nada mais
Destila; evapora;
Onde foi maçã
Resta uma fome;
Onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.
Referências Bibliográficas:
BARBOSA, João Alexandre. A Imitação da forma. São Paulo: Duas Cidades, 1975.
____. As Ilusões da Modernidade. São Paulo: Perspectiva, 1986.
LIMA, Luiz Costa. Lira e antilira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
MAMEDE, Zila. Civil Geometria. São Paulo: Nobel, 1987.
MELO, João Cabral. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
VALÉRY, Paul. Oeuvres Complètes (I e II). Paris: Galimard, 1960.
VILLAÇA, Alcides. “Expansão e limite da poesia de João Cabral”. In: Leitura de Poesia, São Paulo: Ática, 1996.